Sobre a reciprocidade

Hoje um  amigo(?) español me excluiu do Facebook por não estar de acordo com os posts sobre a reação de espanhóis às novas exigências do governo brasileiro para aqueles que querem entrar no país.

Em primeiro lugar, é claro que eu não acredito que todos os espanhóis tenham reagido da mesma maneira. Pelo contrário, estou seguro de que é uma minoria babaca.

Em segundo lugar, não misturemos alhos com bugalhos. As novas medidas do governo brasileiro nada tem a ver com racismo. Se trata de uma medida de reciprocidade. E ao se sentir tão indignado, prova que não tem a menor idéia do que passam os latinoamericanos para entrar na Europa.

Terceiro, vida de imigrante não é moleza em lugar nenhum. Não importa o país de origem nem o país de destino. Mas a ida de latinos e africanos à Europa tende a ser muito mais complicada que o contrário, além de apresentar razões históricas que muitos europeus tendem a ignorar.

Eu fui muito bem recebido na Espanha. Me casei com uma espanhola e não tive nenhum tipo de problema para adaptar-me, uma vez que tanto sua família quanto seus amigos me aceitaram totalmente. Mas isso não me impediu de ouvir coisas como “este país esta de esa manera por culpa de esos sudacas” ou “tu no eres sudaca Luiz. Los sudacas son los peruanos, ecuatorianos, etc”. E por mais que eu tenha sido bem recebido, até poder sair do aeroporto, foi uma odisséia.

Quando eu cheguei ao aeroporto de Amsterdam, já faz quase um ano, em escala antes de voar para Madrid, um oficial de imigração me tirou da fila e me levou para uma janela onde tive que responder todo tipo de perguntas. Aonde vai? Por que vai? Onde vai ficar? Quanto dinheiro está trazendo? Tem seguro saúde? Mostre. Quanto tempo pretende ficar? Onde está  a passagem de volta?

Menos mal que o meu inglês é bastante bom, porque em holandês teria sido impossível. Depois de uns 20 minutos, terminei mostrando minha declaração do imposto de renda e me deixaram passar.

Após mais algumas horas de voô e pousei em Barajas. Ao final do corredor que liga o avião ao terminal, um homem se identificou como policial e outra vez me separou dos demais passageiros. Indagou meu destino, quanto tempo de estadia e se eu trazia qualquer tipo de material não declarado. De início nem entendi, mas em seguida o oficial pediu que eu abrisse minha bagagem de mão e, ao ver que eu não levava uma bomba ou armas, me liberou.

Recolhi minhas malas e fui em direção à saída. Coisa de 5 metros antes de alcançar a porta, fui abordado por outros dois policiais que me perguntaram: “de donde vienes?”, respondi que da holanda, “y antes de eso?” tornaram a perguntar. Respondi que de São Paulo. Ao ouvirem a resposta, mais uma vez me separaram dos demais e me levaram para outra sala onde já estavam outros dois brasileiros. Ali passaram mais uma vez todas as malas por uma máquina de raios-x.

Para terminar, cerca de um mês depois de chegar, fiz uma viagem com minha namorada e alguns amigos para Londres. Ao chegar, como todos são espanhóis, passaram diretamente. Por um descuido, eu tinha esquecido que a Inglaterra é mas não é da União Européia e tive que responder novamente a todas as perguntas que já me haviam sido perguntadas em Amstardam, mas dessa vez teve uma pergunta nova. Aquela que garantiria que eu era apenas um turista bem intencionado. Que monumentos o sr. pretende visitar?

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Sobre ziulfabiano

Filho de pai Argentino e mae Brasileira, vivendo em Madrid e acompanhando o que se passa por aqui e por ali.
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