O pico da produção de petróleo

do Blog do Luis Nassif

Os riscos globais do pico do petróleo

Enviado por luisnassif, seg, 09/04/2012 – 08:45

Por Almeida

O artigo assinado por Dean Fantazzini, Mikael Höök e André Angelantoni é extenso. Merece ser lido com muita atenção; vou reproduzir de modo reduzido, destacar alguns parágrafos e deixar ligação para o conteúdo na íntegra.

No Resistir.info

Petróleo: Riscos globais no início do século XXI

Sumário:
“O incidente do Deepwater Horizon revelou que a maior parte do petróleo que resta está a grande profundidade ao largo da costa ou em outros locais de difícil acesso. Além disso, a obtenção do petróleo ainda existente nos actuais reservatórios em produção exige equipamento e tecnologia adicionais que representam um enorme custo tanto em capital como em energia. Este facto realça as limitações físicas para a produção de quantidades cada vez maiores de petróleo, assim como a possibilidade de que o pico da produção ocorra esta década. Também se analisa aqui sumariamente a economia da oferta e da procura de petróleo, demonstrando porque é que a oferta disponível está basicamente fixada a curto ou médio prazo. Também se faz soar uma campainha de alarme visto que a recessão económica espreita quando a energia consome uma porção desproporcionada das despesas totais dos consumidores. Neste contexto, são indispensáveis práticas de mitigação por parte do governo e dos negócios. Quanto ao primeiro, uma educação precoce dos cidadãos quanto ao risco de contracção económica será uma política prudente para minimizar futura discórdia social. Quanto aos últimos, todas as operações de negócios devem ser examinadas com o objectivo de construir uma elasticidade e preparar um cenário em que o capital e a energia são muito mais caros do que no dos actuais negócios ordinários”.

“O pico da produção do petróleo convencional é um importante ponto de viragem para o sistema mundial de energia porque há muitas questões difíceis que se mantêm sem resposta. Por exemplo: durante quanto tempo se manterá a produção de óleo convencional no seu actual nível de produção? Poderá a produção de petróleo não convencional compensar a diminuição do petróleo convencional? Quais são as consequências para a economia mundial quando a produção total de petróleo diminuir, como é inevitável que acabe por acontecer? Quais são os passos que o mundo dos negócios e os governos podem dar já para se prepararem”?

“O petróleo fornece mais de 90% da energia para os transportes mundiais (Sorrell et al., 2009). A sua densidade energética e portabilidade permitiram que muitos outros sistemas, desde a extracção mineral à pesca em águas profundas (dois sectores especialmente dependentes do gasóleo embora não sejam de modo algum os únicos quanto à sua dependência do petróleo) funcionem a uma escala global. O petróleo é também nevrálgico para todo o resto do sistema energético. Sem ele, a extracção do carvão e do urânio, a perfuração para obtenção do gás natural, e até mesmo a manufactura e distribuição dos sistemas de energia alternativa, como os painéis solares seriam significativamente mais difíceis e mais dispendiosas. Portanto, o petróleo pode ser considerado como um recurso “capacitante”. Ou seja, permite-nos obter todos os outros recursos exigidos para manter em funcionamento a nossa civilização moderna”.

“Há um factor adicional que desempenha um papel importante. Em ambos os modelos, independentemente da abundância de capital ou dos preços altos, a certa altura um poço de petróleo deixa de produzir energia que compense. Hubbert (1982) escreveu: “Há um custo diferente e mais importante que é independente do custo monetário. É o custo com a energia da exploração e da produção. Enquanto o petróleo for usado como fonte de energia, quando o custo da energia necessária para extrair um barril de petróleo seja maior do que o conteúdo energético do petróleo, a produção tem que parar qualquer que seja o seu custo monetário“.

Estas tendências físicas conspiram para tornar a produção de petróleo sempre mais difícil e dispendiosa em termos monetários e energéticos. Os incentivos económicos e o avanço tecnológico podem atrasar essas tendências mas não podem fazê-las parar.”

“Actualmente, mais de 60% da produção mundial tem origem numas poucas centenas de campos gigantescos. O número de descobertas de campos de petróleo gigantescos teve o seu pico no início dos anos 60 e desde então tem vindo a diminuir (Höök et al., 2009). Isto é semelhante a apanhar morangos num campo. Apanhamos primeiro os maiores e os melhores morangos (tal como os grandes campos de petróleo, são os mais fáceis de encontrar) e deixamos os pequenos para depois. Apenas 25 campos são os responsáveis por um quarto da produção global e 100 campos por metade da produção. Apenas 500 campos são responsáveis por dois terços de toda a produção (Sorrell et al., 2009a). Como assinala a AIE (2008), nada é menos certo do que a indústria petrolífera conseguir reunir o capital para explorar os campos restantes, de baixo retorno, suficientemente depressa para compensar a queda da produção dos actuais campos”.

“Mas a produção de petróleo ultimamente tornou-se menos sensível aos tradicionais estímulos económicos. A primeira década deste século assistiu a um enorme aumento na exploração e produção petrolífera quando aumentou o preço do petróleo (Sorrell et al., 2009; 2009a). Infelizmente, conforme já assinalámos, a produção total mundial de petróleo parece ter chegado de vez a uma plataforma. Em grande medida isso deve-se a que o petróleo que resta é sobretudo petróleo não convencional, que é dispendioso e leva mais tempo a chegar ao mercado. Algumas das consequências de já se ter extraído grande parte do petróleo fácil são as seguintes:

a) O início da produção demora muito mais tempo, a partir da descoberta de um novo campo. Maugeri (2010) calcula que actualmente decorrem entre 8 a 12 anos antes de os novos projectos produzirem o primeiro petróleo. As condições difíceis de exploração podem atrasar consideravelmente o início da produção. No caso de Kashagan, a maior descoberta mundial de petróleo nos últimos 30 anos, a produção demorou quase 10 anos devido às difíceis condições ambientais.

b) Em regiões já exploradas, um esforço acrescido de perfuração resulta normalmente num pequeno aumento na produção de petróleo porque se encontraram e exploraram primeiro os campos maiores (Höök and Aleklett, 2008; Höök et al., 2009).

c) Como o custo de extrair o petróleo que resta é muito mais alto do que o da OPEP, fácil de extrair, ou outro petróleo convencional, se o preço de mercado se mantiver durante bastante tempo mais baixo do que o custo marginal, os produtores suspenderão a produção para evitar prejuízos financeiros”.

“Finalmente, Hamilton (2011) sublinhou que 11 em 12 recessões americanas desde a II Guerra Mundial foram precedidas por um aumento dos preços do petróleo. Infelizmente, não há uma fonte de energia nitidamente alternativa que seja capaz de substituir cabalmente o petróleo (ver, por exemplo, Maugeri (2010) para uma análise não técnica recente dos limites de fontes alternativas de energia no que se refere ao petróleo). O petróleo possui uma combinação de densidade energética, de portabilidade e de EROEI historicamente muito alta que dificilmente as alternativas atingem”.

“Mesmo que haja capital suficiente, a substituição tem sido feita até agora com fontes de combustíveis de EROEI alto e mesmo maior. Desde a transição do óleo de baleia, cada transição subsequente tem sido para uma fonte de energia com maior ganho líquido em energia. Foram os densos combustíveis energéticos que estamos a usar actualmente que nos permitiram construir a nossa civilização. Desta vez a dificuldade é que temos que mudar de fontes altamente lucrativas, em termos de energia, para alternativas de ganho mais baixo, como a energia solar e a eólica. Os investigadores já começaram a fazer as seguintes perguntas importantes: qual é o mínimo de ganho de energia que tem que ser sustentado para nos permitir continuar com a nossa civilização? E, partindo do princípio que as alternativas estão à altura da tarefa (o que ainda não foi provado), podemos completar o abandono do petróleo antes que o EROEI geral fique demasiado baixo”?

“Um outro desafio é que, estritamente falando, durante os últimos 150 anos não mudámos de fontes de combustível anteriores para novas – temos vindo a adicioná-las ao abastecimento total. Actualmente estamos a usar todas as fontes significativas (carvão, petróleo, gás e urânio) em alta escala. Assim, é vulgar, mas incorrecto, dizer que mudámos do carvão para o petróleo. Na verdade, estamos a usar mais carvão actualmente do que jamais fizemos (AIE, 2010). Nunca saímos da idade do carvão. O desafio de mudar para fontes de energia alternativas enquanto está em declínio uma fonte especialmente importante, neste caso o petróleo, não deve ser subestimado”.

“Brown et al. (2010b) mostram como é significativo o espremer da produção bruta em declínio e como pode estar a aumentar o consumo dos países produtores, a que chamaram o Modelo da Terra Exportadora. O crescente consumo dos países produtores devido ao crescimento da população actua como um forte “factor de majoração” que retira muito rapidamente o petróleo do mercado de exportação. Usando os cinco principais países exportadores a partir de 2005 (Arábia Saudita, Rússia, Noruega, Irão e Emirados Árabe Unidos), constroem um cenário em que a produção conjunta declina a uns leves 0,5% ao ano durante um período de dez anos num total de 5%. O consumo interno de petróleo para estes exportadores continua a crescer à sua taxa actual (2010). Neste cenário as exportações líquidas de petróleo diminuem em 9,6%, quase o dobro da taxa de declínio da produção de petróleo”.

“Se o pico de produção de petróleo ocorrer esta década, já não há tempo suficiente para impedir a contracção devido ao tempo necessário para a substituição da frota de veículos. Mesmo num cenário moderadamente agressivo, Belzowski and McManus (2010) calculam que, numa economia saudável, em crescimento, em 2050 apenas 80% da frota de veículos na Europa e nos EUA funcionarão com energias alternativas”.

“Como a redução da pobreza está profundamente correlacionada com a disponibilidade do capital (Banco Mundial 2001), quando ocorrer a contracção devida ao declínio da produção do petróleo, alguns países podem ver regredir os ganhos da redução da pobreza feitos nas últimas décadas. Alguns governos também podem ter que enfrentar motins por alimentos e combustível tal como aconteceu em 2007 e 2008. Outras formas de comportamento de multidões, nomeadamente o açambarcamento de combustível e de alimentos, pode exacerbar a situação e os governos devem preparar-se para isso”.

“Neste contexto, são indispensáveis as práticas de mitigação do risco, tanto a nível do governo como a nível das actividades empresariais para se prepararem para preços de petróleo altos e muito provavelmente voláteis. Os governos devem começar a educar os seus cidadãos para o risco da contracção a fim de minimizar uma possível discórdia social futura. Os empresários devem examinar as suas operações e balanço com o objectivo de aumentar a sua elasticidade. Também implica a preparação de um cenário em que o capital e a energia sejam muito mais caras do que nos negócios normais hoje em dia”.

 Este documento encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver também: A centralidade ignorada do Pico Petrolífero.

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Sobre ziulfabiano

Filho de pai Argentino e mae Brasileira, vivendo em Madrid e acompanhando o que se passa por aqui e por ali.
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