Light painting de Janne Parviainen

do Obvious

LIGHT “JANNE” PAINTING: E FAZ-SE LUZ

publicado em artes e ideias por 

Retira-se da ciência que tudo é, basicamente e de um modo geral, composto de luz. Que nós somos luz. Janne Parviainen despe a matéria óbvia da realidade e dá à luz figuras brilhantes, que assombram paisagens inóspitas. Algumas nuas, esquecidas pelas pessoas e das pessoas. Outras adormecidas e inebriadas pelo esplendor das lareiras que as protegem do brilho do imaginário que habita o “lá fora”.

01_Endangered_Species.jpg
© Janne Parviainen, “Endangered Species”.

Não é totalmente exacto dizer que “nós somos feitos de luz”, mas Janne Parviainen desconstrói-nos em radiação electromagnética e revela o ser de luz que há em nós. Em fotografia chama-se Lightpainting, a técnica de desenhar com luz e desconstruir o nosso medo do escuro.

A forma básica de explicar a magia de uma fotografia é dizer que ela capta a luz, a luminosidade natural, artificial, essencial à vista, ao real, e à vida. Os “acidentes fotográficos” – aquelas fotografias mágicas que revelam auto-estradas coloridas, assombrações e distorções das faces, pessoas duplicadas e universos fantasmáticos que parecem coabitar com a definição do traçado exacto, aparições em papel ou no ecrã do computador –, esses “acidentes” são resultado do tempo de exposição da fotografia, ou seja, do tempo que o obturador da máquina esteve aberto – menos luz, mais tempo de exposição (e vice-versa). Manualmente pode-se controlar o tempo que queremos que o obturador (que controla o tempo de exposição) esteja aberto. São imagens, a maior parte das vezes não intencionais, que maravilham o nosso olhar. Ora, descobrir fantasmas ou criar um caos de luz é relativamente fácil de fazer – já fazer arte com isso não é tão simples.

Antes de vos propor uma experiência resplandecente, permitam-me que vos apresente Janne Parviainen, mais conhecido como Jannepaint, um brilhante pintor e fotógrafo finlandês cuja técnica pessoal reflecte a centralização da vida no urbano e na tecnologia. Janne utiliza paisagens naturais e ambientes urbanos como telas tridimensionais para as suas pinturas, transformando a bela rudeza intrínseca das ruínas de uma casa em cenários encantadores. Pinta ora esqueletos luminosos ora monstros de luz, ambos ora em cenários comuns ora em cenários improváveis. As suas fotografias são mantidas o mais naturais possível, sem pós-produção ou efeitos digitais, transparência que preserva o feitiço da técnica. Jannepaint trabalha o simbólico e ressuscita imaginários. Embebe a realidade de saturações pictóricas, quase palpáveis.

07_Midnight-Souls-Still-Remain.jpg
© Janne Parviainen, “Midnight Souls Still Remain”.

02_Evaporated-Masses.jpg
© Janne Parviainen, “Evaporated Masses”.

03_Future Bound.jpg
© Janne Parviainen, “Future Bound”.

04_Hexed.jpg
© Janne Parviainen, “Hexed”.

05_Late-Night-Show-(20'-exposure).jpg
© Janne Parviainen, “Late Night Show (20′ exposure)”.

06_Methan.jpg
© Janne Parviainen, “Methan”.

As primeiras fotografias de luz não tiveram um cariz artístico. Em 1914, Frank Gilbreth e a sua esposa Liliian Gilbreth estavam a estudar métodos de simplificação do trabalho e usaram uma grande abertura do obturador das suas máquinas fotográficas para monitorizar as movimentações de trabalhadores em fábricas e escritórios. Isto servia essencialmente para descobrir formas mais eficazes de produção. Os Gibreth inauguraram a técnica de fotografia continua de luz. A técnica ao serviço do capitalismo. E agora, a técnica ao serviço da arte. Man Ray, artista americano, contribui significativamente para os movimentos dadaísta e surrealista, sendo principalmente conhecido pelos seus trabalhos em fotografia avant-garde. Em 1935 criou uma série de fotografias de luz a que chamou “Space Writing” (“Escrita Espacial”, numa tradução livre). Aqui podemos apreciar três fotografias desta série, as primeiras obras de arte conhecidas desta técnica. Man Ray inaugurou a arte de pintar com luz. Podemos então dizer que o “Raio do Homem” fez luz na fotografia artística.

08_New-Moon.jpg
© Janne Parviainen, “New Moon”.

09_Return-To-Forever.jpg
© Janne Parviainen, “Return To Forever”.

10_Special-Kind.jpg
© Janne Parviainen, “Special Kind”.

fotografia, janne, jannepaint, lightpainting, luz, parviainen
© Janne Parviainen, “Human Meadow”.

fotografia, janne, jannepaint, lightpainting, luz, parviainen
© Janne Parviainen, “Dead Cities Red Seas and Lost Souls” (imagem esquerda).© Janne Parviainen, “Exorcise the Demons” (imagem direita).

A técnica de pintar com luz não é complexa o suficiente para que a maior parte dos leitores não a possa experimentar. É essencialmente divertida. Vamos ver o que é preciso. Então: serve qualquer máquina fotográfica desde que dê para aumentar o tempo de exposição da fotografia. Precisamos também de um tripé e de uma ou várias fontes de luz, consoante o que queiramos fazer. Caso queira experimentar primeiro sozinho esta técnica (antes de fazer uns brilharetes com os amigos ou até, quiçá, antes de se revelar um brilhante artista) é essencial que a máquina tenha um temporizador, caso contrário terá que usar o dom da ubiquidade. O Lightpainting é uma técnica que brilha no escuro, ou seja, a fotografia deve ser tirada em locais com pouca luminosidade. Depois, claro, precisamos do brilho, servem quaisquer fontes de luz: lanternas, isqueiros, brinquedos de crianças com luz, ipads… enfim, no fundo qualquer coisa que emita luz serve. Resumindo: montar a máquina fotográfica num tripé, enquadrar e aumentar o tempo de exposição de acordo com a complexidade e objectivo da fotografia, temporizador, luzes na mão e estamos prontos para a acção. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, toca a desenhar no ar.

É fácil e divertido pintar com luz. Desafio o leitor a experimentar esta técnica e a partilhar connosco as suas luminosas obras de arte. Boas incursões ao universo da luz! O que se segue é da minha autoria:

16_My-Heart-Glows-for-Sofia.jpg
© Miguel Oliveira, “My Heart Glows For Sofia”

Anúncios

Sobre ziulfabiano

Filho de pai Argentino e mae Brasileira, vivendo em Madrid e acompanhando o que se passa por aqui e por ali.
Esse post foi publicado em Cultura e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s