A “minha” música da Revolução dos Cravos

Todos os dias, caminho o curto trajeto de casa até o metrô com meus fones de ouvido e o IPOD programado para tocar de maneira aleatória, o que muitas vezes proporciona uma lista de canções um tanto quanto bizarra. De qualquer forma, das mais de mil músicas dentro do aparelhinho, justo esta manhã tocou “Fado Tropical”, canção composta por Chico Buarque e Ruy Guerra para a peça Calabar.

Gosto muito dessa canção, e da mistura de visões e cores entre Brasil e Portugal. Sempre me lembro de minha mãe comentando como no Brasil essa canção sempre é lembrada quando se fala a respeito da Revolução do Cravos, ocorrida em 25 de Abril de 1974 em Portugal, pouco tempo depois da canção ter sido lançada.

Me dei conta da coincidência de ouvir justo essa música (entre as mais de mil que poderiam ter tocado) somente quando entrei na internet, pois devo admitir que ao sair de casa não estava pensando na Revolução dos Cravos.

De qualquer maneira, deixo aqui a canção que sempre me faz lembrar do que aconteceu em Portugal 38 anos atrás.

Oh, musa do meu fado,
Oh, minha mãe gentil,
Te deixo consternado
No primeiro abril,

Mas não sê tão ingrata!
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental.
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem
de lirismo (além da sífilis, é claro).
Mesmo quando as minhas mãos estão
ocupadas em torturar, esganar,
trucidar, o meu coração fecha os olhos
e sinceramente chora…”

Com avencas na caatinga,
Alecrins no canavial,
Licores na moringa:
Um vinho tropical.
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo…
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto,
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado, eu mesmo me contesto.

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto.

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa,
Mas meu peito se desabotoa.

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa,
Pois que senão o coração perdoa”.

Guitarras e sanfonas,
Jasmins, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo…
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

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Sobre ziulfabiano

Filho de pai Argentino e mae Brasileira, vivendo em Madrid e acompanhando o que se passa por aqui e por ali.
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