Lula dá entrevista para TV portuguesa

do Publico.pt

Lula da Silva: “Quero ver se vou a Lisboa este ano, alugar um carro e conhecer o país todo”

24.05.2012 – 17:40 Por Alexandra Lucas Coelho, em São Paulo

A União Europeia “é património da humanidade”, diz Lula num programa que a RTP transmitirá em Julho. O PÚBLICO acompanhou a entrevista a Graça Castanheira, a primeira desde que terminou o tratamento contra o cancro.

Lula da Silva a assistir a um filme em 3DSol em São Paulo: assim até parece mais fácil Lula aparecer daqui a pouco. Nada de Avenida Paulista, arranha-céus, escritório chique. É uma casa mais periférica, persiana de alumínio, azulejo florido. Ao deixar Brasília, o ex-Presidente anunciou que queria dedicar-se aos problemas de África e América Latina e esse é o foco deste Instituto Lula.

Há algo de errado em chamar a Lula ex-Presidente. Talvez porque toda a gente lhe chama “o Lula”, e manda beijos como se fosse da família. A repórter acaba de aterrar em São Paulo e toda a gente que soube ao que vinha disse: “Dá um beijo no Lula.”

Carinho não se deve, há ou não há. No caso de Lula tornou-se quase uma aflição nacional quando os médicos lhe diagnosticaram um tumor na garganta. À operação seguiram-se três sessões de quimioterapia e 33 sessões de radioterapia. De um dia para o outro foi-se aquele Pai Natal hirsuto: barriga, cabelo, barba. Só sobrou um bigode. E quando uns fios de cabelo renasceram, a perna esquerda ressentiu-se e Lula apareceu com bengala.

Entretanto, em Portugal, a documentarista Graça Castanheira ia esperando. Lula seria o último de 11 protagonistas na série O Tempo e o Modo, que está a ser emitida pela RTP, e inclui nomes como Eduardo Galeano, Laurie Anderson, Lucrecia Martel ou Gonçalo M. Tavares. Para formular o convite, a autora do projecto construiu de propósito um site com uma carta pessoal. A entrevista foi acordada entre Agosto e Outubro de 2011. Lula adoeceu, passaram sete meses. Só no último fim-de-semana Graça recebeu luz verde para dia e hora. Voou para São Paulo e aqui está, a acertar a câmara com uma pequena equipa brasileira. Usando panos negros e painéis, improvisou o cenário no anexo da casa, ao lado da piscina: uma mesa, uma cadeira, um papel de parede azul com flores brancas. A entrevista vai para o ar daqui a dois meses, está marcada para as 14h30 e o PÚBLICO veio para a acompanhar.

Celso Marcondes, do Instituto Lula, amigo do ex-Presidente há 30 anos, faz as vezes de anfitrião. O ex-Presidente continua a morar em São Bernardo do Campo, cintura industrial paulista, onde foi operário. Ontem apareceu em São Paulo, numa homenagem pública. Às 14h30 ninguém sabe a que horas chegará. E “pode não ser hoje”, acautela Graça, após mais um telefonema.

“O FMI não vale nada”

Será hoje. Lula surge às 16h45, cabelo ainda ralo mas já com nove quilos dos 18 que perdeu, já sem bengala. E a sorrir, mirando o pátio: “Podia fazer-se aqui uma cobertura, com umas cadeiras, para tomar um uisquinho…” Traz dois velhos camaradas além do jovem assessor, cumprimenta os presentes, toda a gente se aperta no estúdio, as câmaras acendem-se.

Sentada à sua frente, Graça pergunta-lhe porque não pára. “Faz parte da minha genética, sempre fui habituado a trabalhar”, responde, imediato. “A ociosidade é uma desgraça para o ser humano. Não consigo descansar três dias seguidos.” Quanto mais 30 dias de férias. “Vou morrer fazendo trabalho com muita intensidade.” Por exemplo, agora, aqui, no instituto. “Tenho um compromisso moral com o continente africano. Não é possível que o século XXI não seja o século do continente africano e da América Latina.” Dispara a falar da crise europeia, de como “os bancos estão quebrando” e tudo isso o leva a não parar.

“Quando deixei a presidência, viajei para 36 países em oito meses.” Um erro para a saúde, diz, mas mais forte do que ele. “Fico preocupado com a ausência de liderança hoje no mundo. Essa crise vem de há anos e as pessoas aceitaram-na como se fossem culpadas. Pobre do povo grego. Pagando para quem? Para os bancos franceses, para os bancos alemães. Eu gosto de fazer política. Temos de trabalhar para interferir na política mundial.”

Graça pergunta-lhe pela China. “Vai ter de tomar uma decisão nos próximos meses ou anos: incrementar o consumo interno e gerar uma classe média maior”, responde Lula. “A China tem um papel importante, só não pode é viver uma crise. Tal como os Estados Unidos têm um papel importante, só não podem é achar que fazem com o dólar o que querem. O mundo fica à disposição do tesouro americano. Não é justo que a gente dependa do dólar.” A mesma crítica que Dilma levou a Obama.

E Lula logo volta à crise europeia: “A Europa não pode destruir a União Europeia. É património da humanidade. Os países europeus ficaram muito na dependência da Alemanha. Mas se a Alemanha teve grande importância na unificação da Europa, também foi a grande ganhadora [desse mercado] porque 70% das suas exportações são para a Europa.” A crise da Grécia, ressalva, “podia ter sido resolvida há um ano” com poucos bilhões (milhares de milhões). “É preciso manter a responsabilidade da União Europeia. Conheci Portugal nos anos 80, a Espanha nos anos 80, e vi a evolução extraordinária. Foi dinheiro transformado em património de um povo. Não pode acabar de um momento para o outro.”

Na política mundial, remata, existe hoje um problema: “Obama pensa nos americanos, Merkel nos alemães, cada um no seu mandato. O mundo não está pensado de forma globalizada.” Exemplo: “O FMI é muito bom quando a crise é na Bolívia, mas quando a crise é nos Estados Unidos, o FMI não vale nada.”

99 países

Foco agora no balanço da sua presidência. “Até ao último dia da minha vida tenho de agradecer a Deus o que me deu. Vivemos oito anos de grande intensidade.” Incluindo “uma política internacional como o Brasil jamais tinha feito”, sublinha. “Visitei 99 países, fazendo com que o Brasil ganhasse respeitabilidade como a sexta economia do mundo. Fizemos coisas extraordinárias.” Mais de 20 milhões saíram da miséria e 40 milhões passaram à classe média, diz. Que falta? “A Presidenta Dilma tem condições para fazer muito mais e melhor.”

Ser mulher faz mesmo diferença?, quer saber Graça. Lula acha que sim. Porque “governar o país é agir como se fosse uma mãe, e a mãe é o ser mais justo”, trata todos os filhos de forma igual. Além de que a mulher “tem muito mais sensibilidade política”, “uma leveza na compreensão das coisas”, “consegue enxergar coisas que homem não consegue”. Com “uma esquerda fragilizada no mundo”, o mundo ganha em ter mais mulheres na política.

A propósito, diz, hoje “não existe um pensamento de esquerda como no passado”, quando “bastava ler o Manifesto Comunista”, de Karl Marx. “Houve muitos erros. A esquerda foi pressionada durante muito tempo e foi cedendo espaço.” De que se tratou na recente Primavera Árabe? “Reivindicação de democracia, de esperança, não de um debate ideológico”, distingue Lula. O que existe hoje é “a possibilidade de construir um socialismo democrático de verdade, que respeite a liberdade.” E Lula dá o PT como “exemplo a ser estudado”, porque “o mundo político hoje não tem nada igual”.

A entrevistadora pergunta-lhe pela questão climática, também divisiva entre esquerda e direita. Já rouco, Lula bebe um pouco de água: “A questão climática tem de estar no centro do debate.” O que significa perguntar, por exemplo. “Porque é que a Europa não compra etanol da África e continua a comprar petróleo?” Isto, quando “um bilião de pessoas vai dormir sem ter o que comer”.

Após viver “mais de dois terços da [sua] passagem pelo mundo”, Lula sente-se “muito, muito optimista” em relação ao futuro. Mas “vamos chegar a um momento em que teremos de definir o limite das coisas necessárias no planeta”.

Carinho pela barba

O sofrimento muda a percepção?, pergunta Graça Castanheira. “Sempre fui pessoa de muita sensibilidade à desgraça, só que a gente não espera que essas coisas aconteçam com a gente”, diz Lula. “Em 66 anos nunca fui no hospital a não ser para operar uma apendicite.” Agora, “não existe mais tumor, mas os efeitos colaterais do tratamento são tão graves” quanto a doença. “Minha barba já tinha 30 e poucos anos, eu tinha um carinho muito grande por ela e não vai mais nascer do jeito que era. Todo o mundo se pergunta: “Porquê eu?” Mas sairei dessa experiência mais compreensivo, mais disposto a dar do que receber. Já faz sete meses que estou me cuidando e isso mexeu comigo.”Descobriu o tumor quando foi ao hospital acompanhar a mulher em exames. Ela não tinha nada, ele sim. O seu primeiro susto foi: “O que vou fazer na política aos 66 anos e sem voz? Porque era um tumor de três centímetros nas cordas vocais. E eu ia dar palestras [pelo mundo] com iPad. Mas o tratamento deu muito certo.”

Parece sempre acreditar no bem, nota a entrevistadora. Não crê na maldade? “Acredito cegamente na bondade do ser humano. Sempre tem uma palavra, um gesto, capaz de convencer as pessoas a serem melhores.” Como fez questão de dizer a Dilma, “cuidar do pobre é a coisa mais barata, não custa nada, dá 10 reais para ele e ele fica agradecido”. Assim como governar, afinal, é fácil. “Quando você sabe para quem, de onde veio e para onde vai voltar, quando define as prioridades e os compromissos, governar é muito fácil. Saio gratificado elegendo uma mulher que tem tantos ou mais compromissos do que eu e pode dar oito anos mais ao Brasil.”

Eis a indicação de que não será candidato na próxima eleição. E Dilma, diz, saberá fazer respeitar a sexta economia mundial. Aliás, se “hoje já não se vê o Brasil como uma republiqueta das bananas”, qual foi “a de Obama de convocar o G8 e não convocar o Brasil?”

Os médicos restringem-lhe o tempo de conversa por dia e começa a notar-se porquê. A voz quase desapareceu. Aos 38 minutos de gravação, Graça encerra a entrevista.

Já off, Lula diz, recuperando o ânimo: “Quero ver se vou a Lisboa este ano, alugar um carro e conhecer todo o país. Prometi à minha mulher. Faço 38 anos de casado e ainda não cumpri.”

E depois de se despedir, distribuindo abraços, o seu assessor José Crispiniano garante ao PÚBLICO: “Ele fala mesmo isso de Portugal. Sempre fala.”

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Sobre ziulfabiano

Filho de pai Argentino e mae Brasileira, vivendo em Madrid e acompanhando o que se passa por aqui e por ali.
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