A Grécia passa bem sem a “simpatia” demonstrada pelo FMI ao Níger

do Esquerda.net

A Grécia passa bem sem a “simpatia” demonstrada pelo FMI ao Níger

No Níger, os empréstimos do FMI têm feito mais mal do que bem, porque é o cidadão comum quem paga o preço destes empréstimos irresponsáveis. Por Nick Dearden. Tradução de Helena Romão/IAC.
ARTIGO | 31 MAIO, 2012 – 00:01

Os comentários grosseiros de Christine Lagarde sobre a Grécia causaram uma agitação compreensível no país. Mas no Níger o desdém pela diretora do FMI deve ser semelhante. Ao desprezar o sofrimento das mães na Grécia, Lagarde disse que sentia mais compreensão pelas «crianças de uma escola numa vila pequena do Níger».

Se «compreensão» é o que caracteriza a abordagem do FMI em relação ao Níger, então a Grécia faria melhor em evitá-la. O Níger é notícia com regularidade, associado a ciclos de fome e a níveis elevados de mal nutrição. Menos relatado é o papel do FMI e da sua organização irmã, o Banco Mundial, no estímulo deste sofrimento.

O Níger foi, desde 1982, vítima do agora infame Programa de Ajustamento Estrutural do FMI e permanece até hoje sob um programa desta organização. Tal como na Grécia, o FMI emprestou dinheiro ao Níger para resgatar os credores. Nada foi dito sobre a validade desta dívida, que é uma questão importante, já que os empréstimos começaram a chegar durante os governos militares, ou seja, desde 1974.

Os empréstimos reembolsaram a dívida e, como na Europa atual, foram os cidadãos comuns do Níger quem tiveram que pagar o preço destes empréstimos irresponsáveis, através da austeridade e de uma série de reformas económicas. Podemos ter uma noção do impacto dessas políticas ao observar o que se passa na agricultura.

A maioria das pessoas no Níger vive da terra. O FMI e o Banco Mundial dão prioridade às exportações, como forma vital de obter moeda estrangeira para reembolsar a dívida. Normalmente, isso é feito através da abertura do setor alimentar à volatilidade dos mercados internacionais. A comida importada é subsidiada e inunda o mercado, destruindo o desprotegido setor agrícola.

Combinadas com a austeridade, estas políticas tiveram um impacto devastador. Quando os preços dos alimentos são baixos o impacto real é disfarçado. Mas quando os preços sobem, as pessoas apercebem-se de repente o quão vulnerável é a sua oferta alimentar. Djibo Bagna,presidente da Associação de Camponeses do Níger, acredita que o ajustamento estrutural arruinou a agricultura nigerense: «Claro que, quando este setor envolve 85 % da população, isto tem consequências: menor produção, êxodo rural, aumento dos bairros de lata».

Tal como na Grécia, o programa de austeridade e liberalização também não reduz os níveis de dívida. As dívidas do Níger eram de 960 milhões de dólares quando o ajustamento estrutural começou e continuam a aumentar. Atingiram os 1,8 mil milhões de dólares em 1990 e, depois de uma pequena queda, chegaram ao recorde de 2,1 mil milhões de dólares em 2003. Mais dívida significa maior controle por parte do FMI, o que leva a mais austeridade e reformas.

Após vários anos, o cancelamento da dívida do Níger tornou-se, até mesmo para o FMI, inevitável. O alívio da dívida permitiu ai Níger melhorar a educação e aumentar o acesso à água potável. Mas teve condições. Foi implementada uma taxa de 19% sobre a venda de alimentos básicos, e a subida rápida dos preços colocou os alimentos ainda mais fora do alcance do cidadão comum. A venda das reservas de emergência de cereais, uma política que tinha já provocado fome no Malawi em 2002, causou ainda maiores danos à população mais vulnerável.

Estas medidas conduziram à fome em 2005, que não foi provocada por uma catástrofe natural (os alimentos estavam disponíveis, mas inacessíveis), mas por um tenebroso conjunto de decisões políticas. Mesmo durante a crise o dogma económico não foi aliviado. O FMI aconselhou o governo do Níger a não distribuir comida de graça aos mais necessitados. O denominado «amor violento» de agora para com a Grécia não é novidade.

Lagarde diz: «Às vezes é mais difícil dizer aos governos de países com baixos rendimentos… para reforçar o orçamento e reduzir o défice». Difícil mas não impossível, apesar do impacto que teve repetidamente sobre a pobreza e as desigualdades.

O impacto desesperado das políticas do FMI no Níger ainda não atingiu o objetivo principal: controlar a dívida. Num relatório da Jubilee divulgado na semana passada, percebemos que, dez anos após o cancelamento da dívida, os reembolsos têm o mesmo peso nas receitas do governo que tinham antes do cancelamento. As tentativas do FMI para «reestruturar» o Níger falharam também a este nível.

A pretensão de que o FMI agiu de uma forma mais compreensiva com o Níger do que com a Grécia não resiste ao escrutínio. As políticas do FMI não conseguem assistir aos países em crise. A Grécia pode aprender com isto e tem pouco a ganhar com a «compreensão» de Lagarde.

Tradução de Maria da Liberdade

Revisão de Helena Romão

Original: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2012/may/29/greece-sympathy-imf-niger

Anúncios

Sobre ziulfabiano

Filho de pai Argentino e mae Brasileira, vivendo em Madrid e acompanhando o que se passa por aqui e por ali.
Esse post foi publicado em Violência e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s