O Fado do Assobio

do Esquerda.net

O Fado do Assobio

Portugal é uma nação de um dia; acende o seu lume de liberdade com a acendalha de um só dia de Abril, deixando para os restantes dias do ano uma chama ténue, trémula, definhante.
Por Tiago Pinheiro.
ARTIGO | 3 JUNHO, 2012 – 01:14

Portugal é o condutor a quem nada importa e veloz segue o seu caminho pelas Vias Verdes, reclamando o preço de uma portagem que nem se deu ao trabalho de aferir. Portugal é o cliente do restaurante que paga a conta sem o confirmar, pagando um vasto menu de degustação e provando apenas as entradas.

Portugal é o país de uma hora só; religiosamente segue o noticiário das 20h, esquecendo que é nas restantes horas do dia que as notícias se constroem, esquecendo que a crítica não tem utilidade apenas no recosto do sofá.

Portugal é o país da saudade, embatendo em cada esquina. Afinal o olhar não se desvia do passado, não permite o mínimo vislumbre do que surge agora, do que surge adiante.
Portugal é a nação das exceções, reclamando por feriados, quando as injustiças não são nos 2 ou 3 dias de descanso perdidos mas sim em cada um dos minutos de precariedade do ano inteiro de trabalho.

Portugal é uma pátria de vozes reclamantes fora de tempo, que se esgota na sala de espera de um qualquer Hospital, mas que nem num rabisco se manifesta no livro de reclamações
Portugal é uma nação emaranhada na falsa ilusão de sermos livres. Aprisionamos a mão que o poder económico ainda não segurou com o nosso próprio silêncio.

Portugal é o país do fado, do lamento; um fado tocado em acordes de assobio, soprado para o lado até à exaustão.

Portugal é a casa do esquecimento, olvidando que a culpa não se esgota no larápio, e cobre igualmente aquele que escolhe ver impávido e inerte, compactuando. Portugal é a ausência de luta pelos que estão piores que nós próprios, a luta altruísta por um bem comum, um bem que não sirva para esboçar um sorriso, mas para criar condições para que vários outros tenham oportunidade de surgir.

Assobiamos para o lado, fazemo-lo nos momentos de gritar. Gritamos apenas nos momentos em que ninguém nos ouve, vociferamos apenas no nosso pensamento. O ruído, esse, desvanece no momento de ser ouvido. Os votos não traduzem a revolta, as cruzes marcam como favoritos os outrora malditos; vota-se por hábito e não por convicção ou informação.

Numa época de ataques diários à liberdade, de beliscadelas na dignidade, continuamos demasiado ocupados em impropérios na nossa mente, na segurança da família ou amigos. Assobiamos para o lado, o nosso fado predileto, nos momentos de luta, nas alturas em que se requerem vozes corajosas, corações fortes, mentes interessadas.

Numa altura em que nos é exigido tudo não fazemos nada, esgotamo-nos na lamúria, no murmúrio mentiroso do “vai-se andando”. Enquanto isso empregos perdem-se, famílias contam grãos de arroz, e muitos pagam a fatura de alguns, aqueles que nos (des)governam.

Muitas foram as pegadas na areia deixadas pelos homens e mulheres que não assobiam, antes cantam liberdade; mas as pegadas mais cedo ou mais tarde enfrentaram uma maré mais ou menos tumultuosa que as levará e uma vez apagadas serão esquecidas. Que se cale o assobio, que se trilhem diariamente as pegadas da luta pela igualdade, pela justiça. Que se ergam as vozes de reprovação à mentira dos nossos ministros, que se elevem os tons contra as desigualdades, contra o protecionismo de alguns, contra a escravatura do sistema bancário, que se oiçam as palavras que exigem nada mais do que transparência, que perceber cada alínea da fatura que pagam.

Assobiar para o lado pode ser uma melodia agradável, um fado ligeiro, mas de tanto assobiar um dia fugir-nos-á também o fôlego.

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Sobre ziulfabiano

Filho de pai Argentino e mae Brasileira, vivendo em Madrid e acompanhando o que se passa por aqui e por ali.
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